terça-feira, 9 de junho de 2026

"Não venha nos visitar"


Eu já deveria estar aposentado de escrever estas coisas. Em algum ponto da vida imaginei que a idade me concederia o privilégio da contemplação silenciosa, da jardinagem filosófica e da confortável condição de quem apenas observa o desfile das gerações vindouras repetindo os erros das anteriores. Mas o mundo tem uma curiosa capacidade de sabotar planos. E assim, acabo me vendo novamente obrigado a registrar aquilo que vejo, para que amanhã, quando alguém alegue surpresa diante do óbvio, eu possa voltar aqui e ler minhas próprias obviedades.

A Copa do Mundo sempre foi vendida como uma espécie de armistício temporário da humanidade. Durante algumas semanas, fronteiras se tornam linhas pintadas em um gramado, passaportes cedem espaço às camisas das seleções e povos que passariam o resto do ano trocando acusações passam a trocar figurinhas e apostas sobre quem chegará às semifinais. Era uma ideia bonita mesmo que ingênua. Contudo, às vésperas do certame futebolístico global de 2026, os "IUÉSÊI"  parecem empenhados em demonstrar que, para certos visitantes, passar pela imigração continua sendo um desafio muito maior do que ganhar a própria Copa.

A recusa de entrada a um árbitro somali oficialmente credenciado e os relatos de constrangimentos impostos a delegações africanas e do Oriente Médio produzem uma cena quase literária. O país que se apresenta como anfitrião do mundo resolve, ao mesmo tempo, desconfiar do mundo que convidou. É como organizar um casamento e submeter os convidados a um interrogatório policial na porta da igreja. Naturalmente, tudo será explicado por meio de protocolos, verificações adicionais, critérios técnicos e outras expressões burocráticas cuidadosamente desenhadas para soar neutras. A burocracia moderna possui essa malandra virtude de vestir preconceitos antigos com gravatas novas.

Evidentemente, ninguém admitirá qualquer motivação política. Nenhum prócer subiria ao púlpito para declarar que está selecionando visitantes com base em suas origens, sua cor, seu credo ou na utilidade eleitoral do constrangimento. Para isso existem as sutilezas administrativas. O curioso é que essas sutilezas possuem uma "estranha aleatoriedade" de encontrar sempre os mesmos grupos humanos. Africanos, árabes, muçulmanos ou cidadãos de países considerados inconvenientes (ou seria convenientes? fiquei na dúvida) para a narrativa dos atuais poderosos, acabam submetidos a um rigor que jamais seria anotado quando direcionado a outros viajantes.... Mas, nada de novo... A história é apenas uma longa coleção de repetições exaustivamente repetidas (sim, bem redundante mesmo).

Talvez o aspecto mais revelador não seja sequer o efeito sobre aqueles que tentam entrar, mas sobre aqueles que observam de dentro. Há algo de teatral nessas demonstrações de dureza fronteiriça. Note que a mensagem principal não é destinada ao visitante barrado, mas sim destinada, primeiro a precisão algorítmica da moderna forma de formar turbas, e posteriormente chegue através deste mesmo algorítimo ao tipo de eleitor que se regozija com este conteúdo e depois compartilha como se aplausos da arquibancada política fossem. Um espetáculo cuidadosamente encenado para demonstrar vigilância, firmeza e desconfiança. A ironia seria perfeita se não fosse trágica: a nação que durante décadas construiu sua influência global vendendo ao mundo a promessa de democracia, de abertura, diversidade e oportunidade a "todos", agora se empenha em exibir exatamente o contrário.

O futebol sobreviverá a isso, como sempre sobreviveu aos governos de ocasião. Já tivemos inclusive uma Olimpíada na Alemanha Nazista e o esporte seguiu em frente. Ora ora.. sobreviver a uma edição de Copa em regime similar porém caricato e velado, é barbada. Ainda que o futebol continue, já não se pode afirmar o mesmo quanto a reputação moral das democracias. Esta é uma matéria mais delicada. Ela não costuma ser destruída por grandes acontecimentos, mas por pequenos e repetidos atentados a ela, até que se torne rotina. A percepção do mundo em relação a potência que nos comandou em boa parte do século 20 e todo 21 até aqui, já não é mais a mesma e, a depender da sequência de fatos que podem se seguir durante o maior evento do planeta no qual sedia, poderá sim consolidar de vez esta nova identidade "norte americana" de desprezo a diversidade para o resto do planeta.